segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017



Muitas vezes já se tinha sentido assim, com os mesmos pensamentos e temores. Em todos os períodos bons, fecundos e ardentes de sua vida, mesmo na sua mocidade, vivera sempre assim, queimando a sua vela pelos dois lados, com um sentimento ora jubiloso, ora soluçante de feroz extravagância, de destruição, com uma desesperada avidez de beber a taça até o fim, com um profundo e secreto medo de chegar ao termo de tudo. Muitas vezes tinha assim vivido, muitas vezes já esvaziara a taça, muitas vezes ardera em altas chamas.
(Hermann Hesse, O último verão de Klingsor)

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Alumbramento

Perdi-me trôpego em teus olhos adentro.
Segui sedento a ilusão afora,
sob infindos astros de ardente deslumbramento.
Eu despertara, então, atônito,
agrilhoado aos Teus prazeres.

Quedei perante os séculos
que transitaram na inércia fluída ante o Porvir,
suspenso.

Sob a lua,
deleitei-me ao cantar canções já roucas
que buscara em existências passadas.
Neste vácuo turbilhão que fito, em desvario,
incursionei mais fundo em Teu delírio.

Ávido, busquei o sonho em que despertara a magia,
mirações raras entre paragens distantes
trouxeram-me o prazer.

O tempo desaparecera outras vezes,
e outras vezes mais seguimo-lo em sua hilariante linearidade.
Entrelaçamo-nos em desatino e, afoitos, combalimos enfim...
Jorrou o gozo e o sonho, jorrou o grito
e a garra firme fenece,
enlaça,
agarra novamente
e o Turbilhão retorna!

Avidez devassa que me consome e me consuma!
Restei quedado ao cosmos
E na distância do firmamento:

Dois olhos de esfíngico alumbre m’absorvem.

(Thiago Nelsis)

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Depois do Pesadelo



Perdido nos Desertos do espírito,
adentrei miragens profundas de minha mente sedenta.
Neste oásico deslumbre em que me fiz real,
consumi das areias o mais puro néctar...

“Contaminei-te, mundo, com meu delírio!
Fiz-me tempestade em tresloucadas visões.”

Estou cego, inerte,
eis que a mais estranha quimera era o mundo fora de mim.
Perdi-me entre trevas inventadas – que da luz, insuportável, as fizera...

Fiz savana das florestas onde ardera a Vida!
Desperdício; minha fúria, refúgio frívolo, feriu-me enfim.

Desperto, quero retornar ao Pesadelo!...
eis que materializaram-se os crimes que eu cometera em meu sono.
Estou em fuga! – caçam-me as sombras-homens,
gritam-me lamúrias que lhes cometi no refúgio sutil da Inocência.

Minha patifaria agora enerva-me!
Sou mil vezes as sombras de meu combate solitário,
em que assassinei almas enfermas
ao oferecer-lhes minha indiferente consolação.

O deserto está mudo.
Secaram as sombras,
endurecem-me os olhos que choram areias.

A terra árida e dura racha-me os pés que não mais sangram.
Minha Odisséia traz-me sereias pálidas, roucas e mudas,
que se ainda me pudessem encantar, recusar-me-iam.

Definha no céu opaco um brilho inerte da estrela Aldebarã,
em cujo chamado não me abraçará a insanidade.
O vácuo frio do cosmos gela-me, sem fúria.

Estou são com a compunção que a razão trouxera,
sem mais desfrutar dos perdões da loucura,
e as punições não me serão guardadas...

Eis que danação é fria!... a promessa do alento no ardor do Fogo Eterno,
em cujas chamas talvez a vitalidade aflorescesse
(permitindo-me talvez algum arrependimento)
– esperança final do Pecador! – fora-me retirada.

Em minhas mãos virara pó a última flor salva de meu oásis inventado...
Oh, despertar! Abandona-me!
leva contigo esta consciência inútil, e que esta terra morta se recusa a devorar!

(Thiago Nelsis)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Canção Noturnal

À noite o alento solitário eu peço:
“Ouve este canto do poeta que sofre,
Que na resignação de uns versos pobres
Maldiz as trilhas deste desalento...”

A madrugada segue e me abandono,
Horas sofrendo na vigília inerte:
Rouca canção de mi’a garganta verte
E a solidão vem me trazer o sono...

Ah! infindas noites de ilusão rara!...
E se o silêncio me embala os sonhos,
É que já a embriaguez m’abandonara...

Maravilhas e tormentos noturnos
Que deslizam sobre o tempo! Componho
A vós canções do meu ser taciturno...


(Thiago Nelsis)

O Palco da Memória

Perdi-me entre sombras de pensamentos
Que me arrebatam para além da vida...
Teatro etéreo de inexata nostalgia!
Encena glórias, finge desalentos

De uma vida que se passou por mim.
Espectador frívolo à encenação
De meu ser (externado...), de antemão
Vaiei a peça! – Cortina carmim

Despenca sobre a cena inacabada...
Estou só. Na escuridão, sem memória...
Visões que, louco, atirei ao nada.

O mesmo Nada que de mim eu fiz,
Eu: relutante contra a falsa história
Em que me pus. (Meu ser me contradiz...)


(Thiago Nelsis)

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Desconjunção

Não poderia a eternidade inerte
Dar-me alívio à letargia.
Frente à incompetência para os ofícios,
À inocuidade dos sentidos e do ser,
Atiro-me ao nada que em mim ulula.
E repouso neste turbilhão informe
De sensações torcidas...

Ante a inanição de que sofro na alma,
Sonhou por mim mi’a covardia:
eis que,
Em meus temores, acomodei-me 
Entre as escolhas que não fiz,
Entre os caminhos que se vi seguirem...

(Eu, sem trilhar)...
Fiquei

Eu: cuja felicidade é onde não estou!

Por quantas medidas
Deixei que passasse por mim
O tempo?
Arrastado p’la correnteza dos três ponteiros?

A felicidade é quando não estou!

Concorri co’acaso para firmar
A minha estagnação.
Eu e ninguéns mais! – madrugada gloriosa!
Do Silêncio...
Emerge o porvir: invade meus sonhos e rouba-os
De mim...
Restei flutuando no éter do espaço,
Sob estrelas
– Sorriu-me, entre elas, a mais triste.

Aos ventos do Destino... distanciei-me.
Tangenciava a eternidade
Ida embora entre as correntes do vazio?

Sou os escombros deste mundo inteiro.
Da Humanidade, os receios
De tudo o que poderia ter sido

– E sempre o que poderia ter sido
Ao que vier a ser (isto jamais!). Minha arte
Esvaziou-se numa autoconfissão
Amorfa.

...A felicidade está onde não sou!

(Thiago Nelsis)